O Último

3 12 2008

1150ef0202image_media_horizontalEra sua última refeição. Seu último abraço. Seu último ‘até logo’. Havia recebido uma promoção no mês anterior e estava radiante. Caminhava triunfante pelo saguão do aeroporto. Vestia roupa azul, sapatos pretos muito bem lustrados, gravata vermelha e um broche com o desenho de duas asas, o qual ostentava com muito orgulho, identificando-o como comandante. Henrique Stephanini Di Sacco, 54 anos, entra no Airbus A320 da TAM, voô JJ 3054. Cumprimenta toda tripulação, saúda seus passageiros, se assenta na poltrona e decola às 17h16 do aeroporto de Porto Alegre. Algum tempo depois, Henrique diria suas últimas palavras: “Vira! Vira! Vira!” Em seguida, apenas as chamas.

Se você soubesse quando seria o seu último momento que atitude tomaria? Alguns sairíam para um retiro com a família, outros passariam o tempo todo em oração, ou ainda ficariam a reparar as brechas. Quem sabe? Entretanto, de qualquer maneira, se refletirmos acerca do ‘Último’ (não o Causador ou o Primordial que é Deus, mas a Causa pura e simples), perceberemos quão frágil, impotente e necessitado é o homem.

O tempo corre em direção ao infinito, por mais que tentemos segurá-lo com as mãos, este escorrerá por entre nossos dedos como óleo e quando menos esperarmos, o Último do tempo estará batendo com a parede no nosso corpo, empurrando-nos para o desconhecido. Por mais que lutemos e relutemos para escapar perceberemos que nos é impossível. Não importa quanto conhecimento possamos ter ou a nossa situação financeira, todos somos cortados pela mesma navalha temporal, todos estamos incapacitados de lidar com o tempo. Então, chega o Último.

Pode ser uma imagem desagradável, mas, pare por um instante e imagine o momento de sua morte. Pessoas chorando em volta do esquife, a coroa de flores, roupas negras, uma música em acordes menores tocando ao fundo e alguém sempre afirmando: “Mas ele era tão bom!” A princípio, se congelarmos a imagem nesta ocasião, talvez pareçamos pessoas importantes e que sempre serão lembradas. Porém, deixe que as horas passem, o dias cheguem ao fim e se renovem, deixe que as flores da primavera se desprendam da árvore para dar lugar aos frutos anuais, o pó voltar ao pó, o tempo continuar sua corrida, então você perceberá que nada somos, incapazes de lidar com o Último, que se mostra mais forte que nós.

No momento, encontro-me em uma situação na qual estarei dentro de poucos dias encarando o Último. Não o Último moribundo, mas o Último que volta e meia temos que encarar na vida. Estou a poucos dias de deixar amigos que amo para trás, um local no qual passei momentos incríveis, para seguir em direção a uma nova fase da vida. Então paro para pensar: “Que farei nestes momentos que me restam?” Nesse instante não vale muito à pena refletir nas oportunidades que perdi, mas me concentrar nas últimas oportunidades. Agora começo dar valor àquilo que tem valor, pois, por mais que eu queira o progresso da minha maneira, o tempo é mais forte e me leva ao meu Último.

O Último é um grande paradoxo da vida. Ao mesmo tempo em que traz alegrias para alguns, carrega tristeza para outros, ao mesmo tempo em que encerra o velho, dá início ao novo. O último dia no hospital leva qualquer um à uma esfera de alegria, afinal, agora o doente está curado, as chagas foram levadas e a carne sadia mostra o vigor da pessoa que entra no carro rumo à sua casa, entretanto, o mesmo Último trará grandes lágrimas se a saída se der dentro de uma urna rumo ao local da mortuária. Quando o relógio bate meia-noite sob o manto escuro e flamejante do céu de 31 de Dezembro, ao mesmo tempo despedimos do ano velho e saudamos o ano novo. Alegria, tristeza, velharia, novidade… Em qual lado do paradoxo você prefere se encontrar?

Ainda estamos na Terra, portanto, mesmo que construam máquinas poderosas, computadores velozes, edifícios luxuosos nada disto é mais forte e imponente do que o tempo que leva todas as coisas ao seu Último inevitável. Entretanto, existe Um que é o possuidor do Tempo, Aquele cujo relógio não possui ponteiros, pois é impossível medir a eternidade. Este é o Ser que manifestará o desenlace do Último, levantando a cortina do espetáculo e revelando que o palco da História não tem fim. Ele, que desde milhares de anos antes de Cristo revelou com precisão o que haveria de acontecer em nossa era por meio daquilo que chamamos ‘profecias’, as quais são provas racionais o suficiente para comprovar tanto Sua existência quanto a capacidade de controlar o que foge ao nosso controle, o Tempo.

Chegará o dia em que uma nova era será inaugurada, não mais a Era do Fim, mas a Era do Infinito. O Senhor dos Céus descerá e com poder repetirá as palavras anteriormente ditas, agora em contexto totalmente diferente: “Está feito!” (Ap. 21.6) Encerrou-se o período do Último, as portas se fecharam para então dar início às ‘novas coisas’, pois este Poder disse: “O tempo está próximo. Eu sou o Primeiro e o Último, o Princípio e o Fim. Certamente venho sem demora.” (Ap. 22.10, 13, 20).

O Último pode causar tristeza. Mas lembre-se, o Último é um paradoxo. Portanto, fique feliz, salte de alegria, enxugue as lágrimas, pois estamos nos ‘últimos dias’.





O Belo e o Feio

24 11 2008

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Observe o mundo e reflita: “O que é o Belo?” “Onde encontramos a beleza?” “Quem determinou o Belo?”.

Nas passarelas do mundo da moda encontramos aquilo que a sociedade determinou que seja o Belo. Top Models magérrimas que, de tão esqueléticas, dá pena, mesmo o Senado Brasileiro aprovou um texto proibindo modelos muito magras (cf. http://tinyurl.com/6gxpj9). Claro, também neste mesmo mundo encontramos outras como as Angels da Victoria’s Secret, time do qual fazem parte Giselle Bündchen, Karolína Kurková, Adriana Lima, Alessandra Ambrósio, dentre várias outras beldades, com carros abre-alas postos em uma pequena avenida. Porém, nada passa de mera estereotipação baseada em conceitos nazifascistas.

Tomamos estes conceitos e recriamos a imagem humana em uma caricatura digna de Dr. Frankenstein. “Nossa! Mulher bonita mesmo deve ter os seios como daquela, nariz como da outra, pernas como desta, olhos como de fulana de tal.” “Que é isto?! Homem bonito tem a boca daquele, mãos como do outro, coxas como deste, barriga de tanquinho como de fulano de tal.” Uau! Se precisar de linha e agulha para ajuntar tudo isso é só passar na loja de aviamentos mais próxima. Entretanto, esse não é o homem real, mas, quase sempre, uma imagem da figura européia mesclada com os conceitos definidos de nossa própria cultura, que refletem a força do mais poderoso empurrada sobre a massa. Uma seleção de raças mais ‘dignas’ de beleza em contraposição àquelas que nada merecem. Nazifascismo na estética!

Veja aquelas propagandas onde o objetivo principal é reunir e mostrar todo o país unido. Tiram uma foto com uma dúzia de criancinhas com feições européias, sorrindo com seus olhinhos azuis e demonstrando toda a meiguisse com suas peles rosadas, contudo, para não dar um ar ‘racista’, respingam um ou dois negrinhos, um exemplar de asiático e, se lembrarem, põem uma criancinha nua com pena na cabeça, como se os nossos índios estivessem congelados na gravura da primeira missa no Brasil. E onde está a representação dos 40% da população negra? Ou a grande quantidade de asiáticos que estão por aqui? Eu respondo. Eles estão ocultos por trás do véu do fantasma nazifascista que permeia nossa estética.

Como disse no texto anterior, é impossível definirmos o Belo e o Feio em um conceito de gostos, pois esta definição seria uma imposição de um acidente sobre essência alheia (confira o texto ‘Sobre cebolas, maçãs e batatas’), entretanto, moralmente falando (se é que podemos fundir a ética com a estética), sabemos que matar é uma ação Feia, enquanto que salvar é um ato heróico Belo. Carnificina cheira mal. Beijo sincero perfuma o ar.

O grande problema é uma visão focada na carcaça e não na essência. Damos atributos ao Belo que apenas algumas pessoas têm propriedade, sendo esta totalmente inata. Não houve um esforço no trabalho de alcançar o Belo, não houve reflexão. Pergunte a um artista quanto tempo ele gasta para alcançar o Belo de sua obra. Mesmo a imortalizada frase de Thomas Edison não transmite a idéia do ‘deixar-fluir-naturalmente’: “Uma obra é 10% inspiração e 90% transpiração.” Todavia, chegamos à conclusão que o Belo se encontra na fisiologia do homem e não em sua alma. Concentram-se na digestão e não no coração. Claro, não façamos alusão à dicotomia da separação de corpo e espírito, como se o primeiro fosse mau e o segundo bom, mas o que quero mostrar realmente é o local aonde a beleza se encontra em algo mais profundo que a mera aparência.

Talvez pudéssemos definir o Belo como uma organização do caos. Ao olharmos pessoas com formas que agradam aos olhos, pensamos que ali sim está a organização do caos que não está presente na maior parte, que contém a feiúra. Entretanto esta beleza está fadada ao espelho mágico do tempo que revela a força desorganizadora do caos. Não pense que com isto estou tomando o lado evolucionista onde o ser vivo progride para uma adaptação organizacional de seu corpo ao meio, pelo contrário, isto mostra que a evolução não é ideologicamente plausível em si mesma, pois não há uma organização (beleza) do caos, mas uma desorganização (feiúra) em direção ao caos, ainda que o conceito de ordem nos seja inerente.

Ao refletir sobre o Belo e o Feio pude encontrar um evento na história onde ambos se encontram. Em realidade, este fato foi um forte golpe na linha do tempo, quebrando-a em duas partes. A Revolução Francesa levou ao Modernismo, as Guerras Mundiais depõem este e em seu lugar elevam o Pós-Modernismo, entretanto, este outro evento que cito impactou a história como nenhum outro antes dele. Fez com que o planeta virasse de cabeça para baixo, deu poder aos flácidos, esmigalhou gigantes, chacoalhou governos, confundiu intelectos e ainda permanece um mistério a sua essência. Este foi o evento da cruz!

Muitos hoje, com a sua concepção turva de cristianismo, enxergam apenas os raios brilhantes que são lançados da cruz, entretanto, esquecem de enxergar a nuvem escura e densa que repousa sobre ela. As pinturas do período Renascentista e Romântico retratam a Cristo na cruz como sendo o corpo de um judeu, enrolado com um manto branco na cintura, no qual o sangramento não passa de algumas gotas que pingam de suas mãos. Entretanto, a realidade foi muito mais feia! Cristo foi o Mestre humilhado, pregado brutalmente em duas peças de madeira atravessadas, sua carne dilacerada revelava o vermelho vivo de seus músculos, o semblante terrivelmente apertado pela agonia, levantado nu perante os olhos dos inimigos, asfixiado pelo peso do próprio corpo. Uma imagem que não é nada Bela. Entretanto neste momento aparentemente desorganizador a divindade estava atuando para corrigir, organizar, a devastação do pecado na natureza humana. Foi na maior manifestação de Feiúra que a Beleza se revelou. Na cruz houve a fusão flamejante entre o Belo e o Feio, resultando naquilo que chamamos de Salvação. Na cena assombrosa em que o inocente morreu pelos culpados simultaneamente os culpados foram elevados à condição de inocência. No mesmo momento em que a desorganização do pecado era exposta, a organização da redenção estava se movendo.

Pessoas não contêm o Belo, pois isto seria um conceito mentiroso que parte da ideologia Nazifascista. Entretanto, todos nós podemos refletir o Belo que parte da Perfeição Plena. Portanto, “tributai ao SENHOR a glória devida ao Seu nome, adorai o SENHOR na beleza da Sua santidade.” (Salmos 29.2)





Sobre cebolas, maçãs e batatas

25 09 2008

Não sei se você sabe, pois eu também fiquei surpreso quando li. As cebolas, as maçãs e as batatas têm o mesmo gosto! É isto mesmo que você leu: mesmo gosto. Então, qual a diferença gritante na sensação de sabor? O cheiro. Algo tão simples que aparentemente passa despercebido, entretanto o seu efeito é incrível.

Faça uma experiência em sua casa com alguém. Peça para esta pessoa ficar sentada em uma cadeira com os olhos vendados. Então pegue um alimento e dê para ela comer. Enquanto ela degusta, coloque outro alimento embaixo de seu nariz. Pode crer, os gostos irão se misturar. Por exemplo: enquanto ela come uma barra de chocolate, deixe-a cheirando um pedaço de queijo parmesão. (Hummm! Chocolate coberto com queijo parmesão. Delícia!)

Certa noite, ao me deitar, me veio um insight sobre as cebolas, maçãs e batatas. Então, percebi que isto resolvia a minha dúvida no que diz respeito à verdade absoluta, pois essa pode ser absoluta em diversos pontos, mas, e com relação aos gostos? Quem e como deve reger a verdade absoluta?

Antes de continuarmos, é necessário que eu explique alguns termos e idéias que vou expor a seguir. São os termos ‘essência’ e ‘acidente’. Essência é o conjunto das características de um objeto sem as quais ele não seria, mas isto não é necessariamente a característica física. Acidente são as características físicas de um objeto (cheiro, textura, cor…) as quais podem ser modificadas. Por exemplo: um abacate é verde, tem certo gosto e é oleoso, porém, se o abacate fica podre sua aparência muda, seu gosto muda e pode até mesmo ficar seco (acidentes), entretanto nada irá nos provar que aquilo não seja um abacate (por causa da sua essência), ainda que eu pinte este abacate de azul (acidente), você continuará sabendo que é um abacate (por causa da essência). Entendeu? Continuemos então.

Sabemos que cada um de nós tem uma experiência de vida diferente. Um nasceu no Brasil, outro na Itália, outro na China. Um é acostumado a comer peixe, o outro não. Um sempre escutou bossa-nova, outro nem sabe o que é isto. Um fala português, o outro mandarim. Um veste saia e o outro acha que isto é coisa de mulherzinha. Todos estes fatores que nos rodeiam e moldam as nossas experiências é chamado de Cultura. Existem Culturas Gerais (como a brasileira, angolana, italiana) e as Culturas Específicas (aquela que pertence a cada indivíduo como pessoa).

As Culturas afetam grandemente a nossa maneira de perceber a verdade. Não estou querendo dizer que a verdade é relativa, sempre foi e será absoluta, mas a nossa percepção desta é alterada pela cultura. A figura abaixo representa bem o que estou querendo dizer.

 

A Verdade possui uma essência que se manifesta em um acidente. Tal Verdade lança raios de si mesma sobre nós, entretanto, a Cultura, que funciona como um filtro, irá alterar a maneira de percebermos esta Verdade, todavia a essência permanecerá a mesma. A Verdade não deixou de ser absoluta, apenas foi vista de maneira diferente.

O caso das cebolas, maçãs e batatas exemplifica bem isto. Imaginemos que todas possuem a mesma “essência” (gosto), todavia, a cultura (cheiro) irá alterar a nossa percepção da verdade, nos levando a sensações diferentes.

Portanto, quando alguém pergunta: “Morango é gostoso?” Esta pessoa já está invocando um padrão para algo que não tem padrão. É querer julgar o acidente do morango, no caso o gosto, por meio de filtro alheio, a Cultura. A pergunta de gosto não é passível de julgamento de Verdade, pois depende do filtro. Como poderia ser alterada esta pergunta para se encontrar algum tipo de verdade? Sendo da seguinte maneira: “Você gosta de morango?” Pois, sendo afirmativa ou negativa, em qualquer parte do mundo a resposta será sempre a mesma, absoluta.

Alguém pode levantar a seguinte questão: “E Adolf Hitler? Talvez não tivesse interpretado a Ética do assassinato por meio da cultura dele? Sendo assim, ele não estaria errado em matar.” Afirmação errada amiguinho, pois Ética não tem que ver com julgamento de filtro alheio, pois há uma lei imersa na alma de cada ser humano que aponta para o que é certo e errado.

Encontramos na Bíblia este mesmo conceito. Paulo diz em 1º Coríntios 9.22: “Fiz-me fraco para com os fracos, com o fim de ganhar os fracos. Fiz-me tudo para com todos, com o fim de, por todos os modos, salvar alguns.” Veja que Paulo não alterou a Essência do Evangelho, apenas alterou a sua maneira da passar a Proclamação, a qual é o Acidente. Cada população tinha um filtro diferente, para cada pessoa a relevância de Deus se manifestava de maneiras diferentes, entretanto, em momento algum Paulo deixou de pregar a Cristo e este crucificado. Paulo no seu discurso junto aos filósofos de Atenas (Atos 17) pregou sobre Jesus à moda grega. Todavia um discurso totalmente diferente foi feito às pessoas judias. A Essência é a mesma, porém a sua percepção varia.

Em realidade, podemos afirmar que a Essência do Evangelho é impossível de ser percebida enquanto estamos na Terra. Cada pessoa tem uma maneira diferente de perceber a Verdade, a percepção do Evangelho varia (lembre-se, a percepção, não a Essência do Evangelho), claro que isto não nos impede de conhecermos a necessidade do Evangelho e seu impacto em nossa vida. Todavia, ainda possuimos filtros e acidentes para estes filtros que nos impedem de olhar a Essência do Evangelho em seu âmago, porém, um dia virá, quando todos estaremos vivendo em um mesmo país, falando a mesma língua, amando as mesmas coisas, possuindo uma mesma Cultura. Um dia virá em que estaremos estudando a Essência de nossa atual Proclamação, vendo o rosto e ouvindo a voz dAquele que é a própria fonte da Essência do Evangelho. Então, durante um tempo que não tem fim estaremos compreendendo o mistério de Deus e perceberemos, sem mais nenhum tipo de barreira, a grandiosidade e infinitude do Amor que recebemos, compreenderemos “que grande amor nos tem concedido o Pai, a ponto de sermos chamados filhos de Deus;” entenderemos que “de fato, somos filhos de Deus.” (1 João 3.1)

Mas, ainda estamos na Terra. E por enquanto as coisas se explicam por meio de cebolas, maçãs e batatas.





O Onipotente sem Poder

10 09 2008

 

Quantas vezes nos deparamos com situações aparentemente impossíveis de se realizar? Talvez chegar a tempo em um determinado local quando há aquele engarrafamento quilométrico à sua frente. Ou então fazer com que colha-se dinheiro em árvore para que as contas sejam pagas. Impossíveis! Bom, entretanto, antes de continuarmos esta discussão é necessário definirmos o que é impossibilidade.

A palavra impossível é definida da seguinte maneira pelo dicionário Houaiss: Que não se coaduna com a realidade, que se opõe à razão e ao bom senso; que é destituído de sentido, de racionalidade; extravagante, esquisito, absurdo. Entretanto, podemos por meio da razão detectar certos acontecimentos que fogem à compreensão intuitiva da racionalidade, a estes fenômenos chamamos ‘milagres’ (tratarei a respeito deles em outra ocasião).

Sabemos que Deus é capaz de realizar diversos milagres. Podemos ver o milagre da ressurreição de Cristo, para o qual temos até mesmo provas históricas. O milagre da criação deste planeta (ou você vai me dizer que uma explosão, a qual por si mesma deveria ser um milagre, pois foge à racionalidade intuitiva, originou sozinha todo o universo?). O milagre da transformação do caráter que ocorre em todo aquele que anda verdadeiramente com Cristo. Norman Geisler define o planeta Terra como sendo uma caixa aberta na qual Deus pode intervir, portanto, milagres existem. Sendo assim, se milagres existem as impossibilidades são totalmente possíveis.

Entretanto, o mais interessante de se observar no que diz respeito às impossibilidades são as declarações que as pessoas fazem: “É impossível que não haja fome no mundo!” “É impossível que a violência acabe!” “É impossível que as pessoas se amem!” Veja que são possibilidades declaradas impossíveis. Certo, devo admitir que a transformação do homem é um milagre, portanto, é impossível realizá-lo sozinho (isto sim é um impossibilidade!), porém, o homem precisa simplesmente deixar a sua vontade dominar-se pelo amor, então todas estas aparentes impossibilidades se tornam possíveis. As pessoas gritam com o Céu culpando-o do silêncio sepulcral quanto ao mal na Terra, porém na verdade a mudança é uma atitude que deve vir do homem. Casos de impossíveis completamente possíveis.

Outro ponto a ser destacado é aquilo que C. S. Lewis denominou de ‘impossibilidade intrínseca’, a qual é tanto impossível para o homem como impossível para Deus. Quer um exemplo? Quantos quilômetros existem em uma hora? Qual a forma da cor vermelha? Quanto de maçã existe em um eucalipto? Estas são coisas impossíveis de se medir! Depois vem aquele energúmeno e diz: “Viu? Deus não é onipotente, afinal Ele não consegue fazer nada disto!” Sumidade burra! Por um acaso palavras aglutinadas de maneira que expressem nenhum sentido o passem a ter pelo simples fato de acrescentar a frase ‘Deus pode…’!? É claro que não! Isto nos faz concluir sem nenhuma sombra de dúvida que Paulo tinha razão ao denominar Jeová como “o Deus que não pode mentir” (Tito 1.2), pois afirmar que Deus pode mentir é ajuntar palavras que não fazem sentido algum; Deus, por essência (em parte no sentido aristotélico), é a verdade.

Com isto chegamos a um ponto que podemos afirmar que Deus é um onipotente sem poder. Entretanto, precisamos completar esta frase. Deus é um onipotente sem poder para realizar aquilo que é responsabilidade do homem realizar (apesar de poder fazê-lo Ele não o faz, pois concede o livre-arbítrio). Deus é um onipotente sem poder para realizar aquilo que é impossível em si mesmo. Mas é extremamente poderoso para realizar milagres em nossa vida, para tocar e solucionar aquilo que não tem solução. Curar pacientes terminais. Parar a rotação da Terra. Ressucitar mortos. Intervir na vida do homem quando este não pode fazer mais nada. Neste momento ficamos pasmos, os pêlos de nosso corpo se arrepiam, a expressão fica paralisada como se tivesse visto um ser espiritual, os músculos ficam relaxados, mas nos sentimos enrijecidos, então nos maravilhamos ante a impossibilidade tornada possível pelo poder que não podemos conhecer. Não me pergunte como posso entender pelo método científico os milagres, pois estes estão em uma abóbada superior à nossa inteligência. Todavia, por muito tempo não declarávamos piamente que a Terra se encerrava em um abismo de uma superfície plana? O simples fato de não poder compreender algo não significa que este não seja real. Não compreendo as mulheres, mas isto não às torna ilusórias. Um camponês não compreende a internet, entretanto, isto não significa que ela não exista.

As possibilidades estão ao meu alcance. As impossíbilidades intrínsecas nem mesmo Deus realiza. As minhas impossibilidades são milagres que Deus nos dá. “Isto é impossível aos homens, mas para Deus tudo é possível.” (Mateus 19.26).

 





Pólo Sul, Pólo Norte, Vice-versa

7 07 2008
     Eu me encontro a  22°28’24.18″ ao sul e  47°11’26.28″ ao oeste, ou seja, precisamente dentro do meu quarto. Entretanto, paro para pensar: “Por que estou ao sul e não ao norte ou ao leste?”
     Estamos acostumados a tomar os mapas escolares que apontam os EUA na parte superior, enquanto que a Autrália se encontra na região inferior. Vemos a África ao centro de tudo e o estreito de Bering localizado nas pontas da carta geográfica. Todavia, esta é uma visão predeterminada.
     Se fosse possível estarmos quilômetros acima do nível do mar poderíamos ver a Terra do espaço, onde não há gravidade considerável, portanto, não existe a noção de ‘em cima’ e ‘embaixo’. Observando por esta perspectiva percebemos que toda classificação de norte e sul se perde em meio a este vácuo infinito que é o nosso universo. Planetas e estrelas não passam de meros pontos distribuídos em um espaço-tempo indefinido. Posso mergulhar, nadar na direção que eu quiser e ainda assim dizer que estou indo na direção correta. Quando nos encontramos no espaço cósmico não existe mais posição norte, sul, leste ou oeste, mas simplesmente, pela lógica do princípio antrópico (um princípio que toma a mim mesmo como prova da minha existência) estou em algum lugar, podendo tomar a mim mesmo como centro do universo, ou ainda tornar como ponto de referência a estrela Sirius da constelação de Cão Menor. Tudo isto não passa de convenção.
     Isto me leva a refletir acerca do conceito de verdade. Seria a verdade absoluta ou relativa? O que é verdade para mim pode não ser verdade para o outro? Ou a verdade é única e imutável? O que seria em realidade a verdade?
     Existem muitas pessoas que dizem que a verdade em realidade é relativa, pois o que é verdade para mim pode não ser verdade para o outro. Para tais indivíduos, o mundo e as questões que nos rodeiam não passam de gostos. Um diz que chocolate é a melhor coisa que existe, enquanto o outro diz que doce de limão é a melhor coisa que exitste. Qual das duas coisas é a verdade? Depende, dizem alguns, tudo é um detalhe de gosto pessoal.
     Entretanto, estas sumidades entram em conflito com elas mesmas, pois a própria afirmação: “A verdade é relativa!” é uma contradição, pois se a declaração é uma verdade eu pergunto: ‘Isto é absoluto ou relativo?’ Perceba que esta entra em um movimento centrípeto até se chocar em si mesma.
     Considerar a verdade como relativa abraça outros conceitos muitos mais graves do que o mero pensamento filosófico. Quem disse que o homicídio é errado? Por que nos causa aflição saber que uma pessoa próxima foi estuprada? Por que ficamos com raiva se somos roubados? Afinal, estas coisas podem ser erradas e hediondas para mim, mas para o sujeito que praticou a ação nada disso é errado. Veja que com o conceito de verdade relativa a sociedade entraria em um caos. É simplesmente impossível fazer a declaração de que não há verdade absoluta, pois o próprio meio em que vivemos nos mostra claramente, por meio de leis, que é assim.
     Gostaria de ver algumas destas pessoas dizendo que não há gravidade. Ou que a Terra tem o formato de um cubo. Ou ainda, vê-las afirmando lagartos voam e pássaros nadam. Engraçado, se encontrarmos alguém no meio da rua fazendo estas afirmações e dizendo piamente que são verdades, logo a colocaríamos em um hospício. Ué!? Mas a verdade não é relativa?
     Veja que o simples fato de afirmar que não existe gravidade, não fará com que ela deixe de existir. Ou ainda a Terra não será um cubo, ou lagartos estarão a voar e pássaros a nadar. Pois o que eu afirmo ser verdade não altera a verdade em si.
     Voltemos ao início do texto quando observávamos o planeta quilômetros acima do nível do mar. Nesta perspectiva percebemos que não existe norte, sul, leste, oeste, tudo é uma questão de convenção. Isto é relativo, pois é convencionado. Entretanto, a Terra, tanto em sua essência com na aparência, não sofre alteração alguma, pois não importa o nome que eu dê para o planeta, ele continuará o mesmo. Pólo sul, polo norte? Mera convenção.
     Assim também é Deus. Existem milhões de pessoas na atualidade que negam a Sua existência. Sumidades acadêmicas como Richard Dawkins praticamente decretam: “Deus, no sentido da definição, é um delírio; … um delírio pernicioso.” (Deus, um delírio; p. 56) Outros, como Freud e Niestzsche, dizem que Deus foi uma mera ilusão criada na mente humana que não se encaixa mais nos padrões modernos. Então eu pergunto: ‘Que diferença faz este tipo de declaração? Deixará Deus de existir apenas porque certas ‘inteligências’ negam Sua existência?’ A resposta é não. O que eu digo ou deixo de dizer acerca de Deus não fará com que Ele deixe de existir. Temos provas suficientes para captar a Sua existência, para perceber que a Sua mão está agindo neste planeta. A única coisa relativa em Deus é o seu nome, alguns chamam de Jeová, outros de Altíssimo, outros de Todo-Poderoso, ainda outros apenas não chamam, por considerar o Seu nome santo demais para ser pronunciado. Apesar de os nomes diferirem, Deus permanece o mesmo e imutável. Ele mesmo declarou: “Porque eu, o SENHOR, não mudo!” (Malaquias 3.6).
     Pólo norte, pólo sul? Pode ser vice-versa. Nada altera a verdade.