Livre(mente)

9 01 2009

livre(mente)[Obs.: Recomendo a leitura do texto ‘Sobre cebolas, maçãs e batatas’ para compreender melhor o que se segue]

 

Qual a imagem que vem à sua mente quando é proferida a palavra ‘liberdade’? Uma pessoa de braços abertos? Um escravo correndo com suas algemas partidas? O oceano infinito? O vôo de uma águia? As estrelas espalhadas pelo vasto universo? Quando eu penso em liberdade vem à minha mente uma mescla de tudo isto. O som da palavra liberdade produz uma vibração na minha alma, que reverbera por todo o meu corpo, escapando por meio de uma luz invisível ao som da respiração. Não é possível explicar exatamente qual o efeito da liberdade em mim, mas de uma coisa eu sei: Todos nós a buscamos.

Em 1888, segundo os livros de história e a clássica compreensão, o Brasil assinou a chamada Lei Áurea, dando liberdade à todos os escravos. Sabemos muito bem que não é só o Brasil, mas praticamente todos os países do mundo possuem leis contra um regime escravocrata. Tudo isso é o reflexo de um impulso interior que flui do ser humano. Não fomos feitos para viver presos, mas somos pássaros que voam do penhasco em direção ao horizonte rumo à liberdade. Leonardo Boff diz que “possuímos essa dimensão de abertura, de romper barreiras, de superar interditos, de ir para além de todos os limites” (Tempo de Transcendência, p. 28). Somos seres da liberdade. G. K. Chesterton, ao falar da criação, diz que “toda criação é uma separação”, pois o vaso não é parte do oleiro, foi fruto da idéia dele, mas agora está desprendido para exercer sua função de vaso. Tendo isto em mente, Chesterton completa: “o princípio filosófico básico do cristianismo era que esse divórcio no ato divino de criar … era a verdadeira descrição com o qual a energia absoluta criou o mundo. Segundo a maioria dos filósofos, Deus ao criar o mundo, o escravizou. Segundo o cristianismo, ao criá-lo, Deus o LIBERTOU.” (Ortodoxia, pp. 129, 130. Ênfase minha). Portanto, fomos colocados no mundo para viver em plena liberdade.

Somos seres para viver livre(mente). Livres para tomarmos nossas próprias decisões, caminhar pela via que escolhermos, crer naquilo que quisermos. E possuímos uma mente, que nos direciona para tal liberdade. Livre(mente) tem o mesmo complemento que total(mente), com o espírito pleno, e forte(mente), de alma decidida, portanto, livre(mente) significa um espírito liberto. Entretanto, nossa sociedade atual tem transmitido um conceito irracional, estúpido, transformando-nos de livre(mente) para mente(captos), de águias para avestruzes, dando-nos um placebo de total liberdade, quando na verdade não conseguimos nem mesmo levantar do chão. Esta doença é chamada de relativismo.

Por muito tempo vivemos sob o regime da tradição, ou como Chesterton a define, a “democracia dos mortos”. Não importa a causa, devemos seguir o que nossos antepassados têm feito por muitos e muitos anos. Tradição. Como a tradição do Natal, comemorada no dia 25 de dezembro, data que a princípio relembrava o nascimento de Jesus, pura tradição. Cristo provavelmente nasceu entre o período de fevereiro a maio (não sabemos ao certo); não havia um pinheiro com bolas lá na estrebaria, nem mesmo um peru assado para ser comido, entretanto, por assimilação de outra cultura, o cristianismo estabeleceu a data e tudo o mais seguiu-se por meio da tradição. Veja que não condeno a tradição, pois sem ela muito da história se perderia e mesmo o conhecimento não cresceria (pois não existe pesquisa científica sem pressupostos), porém, se esta for assimilada como meio de vida, internalizando-a na alma, o indivíduo acaba se tornando um escravo do passado com algemas que o arrastam para trás, fazendo-o crer em crendices, imaginar o que já foi imaginado, possuir medo de abrir novas trilhas.

Em 1789, com a Revolução Francesa, é levantada a bandeira da liberdade. ‘Não mais presos pelos dogmas da igreja. Não mais pressionados pela escuridão do falso conhecimento. Não mais governo totalitário. Agora somos todos livres, para viver da forma que quisermos!’ “Laissez faire, laissez passer, le monde va de lui même!” (Deixai fazer, deixai passar, que o mundo caminha por si mesmo). Viva o relativismo! Todavia, os ânimos se vão, a confusão é acirrada e em 1795 o governo levantado na Revolução, cai. Apesar desta derrota os conceitos relativistas perduram até hoje.

Anteriormente os homens estavam escravizados à tradição, então se levanta o relativismo procurando liberdade, mas novamente escraviza o ser humano. Em realidade, devemos buscar ser livre(mente) como as pessoas que viviam antes da tradição (se algo é tradição, alguém deve tê-lo iniciado) e que transcendiam o relativismo.

Os relativistas dizem: “Fora a tradição! Agora sou livre para voar e fazer o que bem quiser! Se caso não gostarem das minhas idéias, do meu jeito de vestir, da minha fala, dos meus gostos, que se danem! Eu sou um ser à frente da minha época!” Pobre coitado, pensa possuir asas de águia quando na verdade não passa de um avestruz; crê estar liberto, mas acabou de se tornar escravo de suas próprias idéias.

Os Seres livre(mente) não estão presos a uma linha de tempo, mas caminham pelas eras, como um rei em seu palácio. Entretanto, esses sabem muito bem que para serem livres é necessário que se limitem. O relativismo nos diz que para obter a liberdade não devo me prender a caminho nenhum, no entanto, se todos os caminhos levam à Roma, não posso ir à Roma por todos os caminhos de uma só vez, pois se assim for, provavelmente me encontrarei perdido, vagando de um caminho para o outro. Para ser realmente livre é necessário se limitar, caminhar por um só caminho, enraizar-se em um único solo para então abrir os galhos e alcançar toda a redondeza da Terra. Os Seres livre(mente) são plásticos o suficiente para adaptar-se a qualquer pessoa sem perder os princípios nos quais está enraizado, porém, é necessário lembrar que nem todos os caminhos levam à Roma, pois o caminho para Londres não te levará para as terras ítalas. Então, se uns dizem que a felicidade é alcançada pelo Nirvana, outros pelo materialismo e outros por Cristo, todos não podem estar certos, pois se contradizem. O Ser livre(mente) raciocina e fundamenta suas raízes na visão correta para então viver sua liberdade.

Paulo disse: “Ora, o Senhor é o Espírito; e, onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade.” (2 Coríntios 3.17), e também falou: “Vede, porém, que esta vossa liberdade não venha, de algum modo, a ser tropeço para os fracos. E, por isso, se a comida serve de escândalo a meu irmão, nunca mais comerei carne, para que não venha a escandalizá-lo.” (1 Coríntios 8.9, 13). Paulo, desde os tempos anteriores à tradição cristã, já vivia de maneira livre(mente), fixava sua raiz no caminho certo e se expandia para o mundo inteiro.

Sou um ser livre(mente), não me importo em me adaptar à pessoas ao meu redor, não me importo em me modificar para ser melhor compreendido. Isso não diz que eu não possuo modismos e gostos, entretanto, estou disposto a abandoná-los se for para que outras pessoas entendam o verdadeiro Caminho, se for para lembrar que ainda estamos na Terra, se for para anunciar a vinda de um Novo Reino. Não me importo em falar chinês, vestir turbante, bater continência, pois sei onde está a minha raiz, de onde sugo energia e vida, o resto, são galhos.

Anuncio-lhes, pois, o retorno ao Ser Livre(mente).

 


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One response

24 07 2009
Agnon

Também gostei do seu blog.
Um abraço.

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