Sobre cebolas, maçãs e batatas

25 09 2008

Não sei se você sabe, pois eu também fiquei surpreso quando li. As cebolas, as maçãs e as batatas têm o mesmo gosto! É isto mesmo que você leu: mesmo gosto. Então, qual a diferença gritante na sensação de sabor? O cheiro. Algo tão simples que aparentemente passa despercebido, entretanto o seu efeito é incrível.

Faça uma experiência em sua casa com alguém. Peça para esta pessoa ficar sentada em uma cadeira com os olhos vendados. Então pegue um alimento e dê para ela comer. Enquanto ela degusta, coloque outro alimento embaixo de seu nariz. Pode crer, os gostos irão se misturar. Por exemplo: enquanto ela come uma barra de chocolate, deixe-a cheirando um pedaço de queijo parmesão. (Hummm! Chocolate coberto com queijo parmesão. Delícia!)

Certa noite, ao me deitar, me veio um insight sobre as cebolas, maçãs e batatas. Então, percebi que isto resolvia a minha dúvida no que diz respeito à verdade absoluta, pois essa pode ser absoluta em diversos pontos, mas, e com relação aos gostos? Quem e como deve reger a verdade absoluta?

Antes de continuarmos, é necessário que eu explique alguns termos e idéias que vou expor a seguir. São os termos ‘essência’ e ‘acidente’. Essência é o conjunto das características de um objeto sem as quais ele não seria, mas isto não é necessariamente a característica física. Acidente são as características físicas de um objeto (cheiro, textura, cor…) as quais podem ser modificadas. Por exemplo: um abacate é verde, tem certo gosto e é oleoso, porém, se o abacate fica podre sua aparência muda, seu gosto muda e pode até mesmo ficar seco (acidentes), entretanto nada irá nos provar que aquilo não seja um abacate (por causa da sua essência), ainda que eu pinte este abacate de azul (acidente), você continuará sabendo que é um abacate (por causa da essência). Entendeu? Continuemos então.

Sabemos que cada um de nós tem uma experiência de vida diferente. Um nasceu no Brasil, outro na Itália, outro na China. Um é acostumado a comer peixe, o outro não. Um sempre escutou bossa-nova, outro nem sabe o que é isto. Um fala português, o outro mandarim. Um veste saia e o outro acha que isto é coisa de mulherzinha. Todos estes fatores que nos rodeiam e moldam as nossas experiências é chamado de Cultura. Existem Culturas Gerais (como a brasileira, angolana, italiana) e as Culturas Específicas (aquela que pertence a cada indivíduo como pessoa).

As Culturas afetam grandemente a nossa maneira de perceber a verdade. Não estou querendo dizer que a verdade é relativa, sempre foi e será absoluta, mas a nossa percepção desta é alterada pela cultura. A figura abaixo representa bem o que estou querendo dizer.

 

A Verdade possui uma essência que se manifesta em um acidente. Tal Verdade lança raios de si mesma sobre nós, entretanto, a Cultura, que funciona como um filtro, irá alterar a maneira de percebermos esta Verdade, todavia a essência permanecerá a mesma. A Verdade não deixou de ser absoluta, apenas foi vista de maneira diferente.

O caso das cebolas, maçãs e batatas exemplifica bem isto. Imaginemos que todas possuem a mesma “essência” (gosto), todavia, a cultura (cheiro) irá alterar a nossa percepção da verdade, nos levando a sensações diferentes.

Portanto, quando alguém pergunta: “Morango é gostoso?” Esta pessoa já está invocando um padrão para algo que não tem padrão. É querer julgar o acidente do morango, no caso o gosto, por meio de filtro alheio, a Cultura. A pergunta de gosto não é passível de julgamento de Verdade, pois depende do filtro. Como poderia ser alterada esta pergunta para se encontrar algum tipo de verdade? Sendo da seguinte maneira: “Você gosta de morango?” Pois, sendo afirmativa ou negativa, em qualquer parte do mundo a resposta será sempre a mesma, absoluta.

Alguém pode levantar a seguinte questão: “E Adolf Hitler? Talvez não tivesse interpretado a Ética do assassinato por meio da cultura dele? Sendo assim, ele não estaria errado em matar.” Afirmação errada amiguinho, pois Ética não tem que ver com julgamento de filtro alheio, pois há uma lei imersa na alma de cada ser humano que aponta para o que é certo e errado.

Encontramos na Bíblia este mesmo conceito. Paulo diz em 1º Coríntios 9.22: “Fiz-me fraco para com os fracos, com o fim de ganhar os fracos. Fiz-me tudo para com todos, com o fim de, por todos os modos, salvar alguns.” Veja que Paulo não alterou a Essência do Evangelho, apenas alterou a sua maneira da passar a Proclamação, a qual é o Acidente. Cada população tinha um filtro diferente, para cada pessoa a relevância de Deus se manifestava de maneiras diferentes, entretanto, em momento algum Paulo deixou de pregar a Cristo e este crucificado. Paulo no seu discurso junto aos filósofos de Atenas (Atos 17) pregou sobre Jesus à moda grega. Todavia um discurso totalmente diferente foi feito às pessoas judias. A Essência é a mesma, porém a sua percepção varia.

Em realidade, podemos afirmar que a Essência do Evangelho é impossível de ser percebida enquanto estamos na Terra. Cada pessoa tem uma maneira diferente de perceber a Verdade, a percepção do Evangelho varia (lembre-se, a percepção, não a Essência do Evangelho), claro que isto não nos impede de conhecermos a necessidade do Evangelho e seu impacto em nossa vida. Todavia, ainda possuimos filtros e acidentes para estes filtros que nos impedem de olhar a Essência do Evangelho em seu âmago, porém, um dia virá, quando todos estaremos vivendo em um mesmo país, falando a mesma língua, amando as mesmas coisas, possuindo uma mesma Cultura. Um dia virá em que estaremos estudando a Essência de nossa atual Proclamação, vendo o rosto e ouvindo a voz dAquele que é a própria fonte da Essência do Evangelho. Então, durante um tempo que não tem fim estaremos compreendendo o mistério de Deus e perceberemos, sem mais nenhum tipo de barreira, a grandiosidade e infinitude do Amor que recebemos, compreenderemos “que grande amor nos tem concedido o Pai, a ponto de sermos chamados filhos de Deus;” entenderemos que “de fato, somos filhos de Deus.” (1 João 3.1)

Mas, ainda estamos na Terra. E por enquanto as coisas se explicam por meio de cebolas, maçãs e batatas.


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